Parashá Terumá (Shemot/Êxodo 25:1–27:19) é o início da longa seção sobre o Mishkan,
o “Santuário portátil”, e fala de contribuição voluntária, da presença divina na história e de como transformar espaço físico em lugar de encontro com Deus. A seguir, organizo um shiur com as aliot, resumo do texto, alguns principais mefarshim (Rashi, Ramban, Sforno, etc.) e mensagens práticas para hoje.Visão geral da Parashá
Localização: Shemot 25:1–27:19.
Tema central: ordem de construir o Mishkan (Tabernáculo), com detalhes minuciosos dos utensílios e da própria estrutura.
Estrutura básica:
Pedidos de doações (terumá).
Arca (Aron), Kaporet (tampa) e querubins.
Mesa dos pães (Shulchan) e Menorá.
Estrutura do Mishkan, cortinas, tábuas, etc.
Altar exterior (mizbeach ha’olah) e pátio.
Ramban vê o Mishkan como continuação da Revelação do Sinai: a Presença que se manifestou em Har Sinai agora “se concentra” de forma permanente no Mishkan, como se o Sinai fosse “transportado” para o acampamento. Rashi e Sforno relacionam o Mishkan também com a prevenção de desvio para formas de culto pagão, especialmente em relação ao bezerro de ouro.
Aliá 1 – Doações e propósito do Mishkan (25:1–16)
Resumo
Deus ordena a Moshe que peça doações voluntárias (terumá) de ouro, prata, cobre, tecidos, peles, madeira de acácia, óleo, especiarias e pedras preciosas.
Objetivo: “E farão para Mim um santuário, e habitarei no meio deles” – não apenas “no meio dele (do templo)”, mas “no meio deles (do povo)”.
Começa a descrição da Arca da Aliança, com dimensões e materiais (madeira revestida de ouro, argolas e varas de transporte).
Comentários de sábios
Rashi nota que as doações são “de todo homem cujo coração o impulsionar”, destacando a importância do coração na mitsvá: não é imposto à força, mas expressão de vontade interna.
A palavra Terumá é entendida como “elevação”: o doador eleva o objeto e, ao mesmo tempo, se eleva espiritualmente.
O versículo “E fareis para Mim um santuário, e Eu habitarei no meio deles” é interpretado por muitos (Midrash, Chassidut) como: o verdadeiro lugar da Shechiná é dentro de cada judeu, dentro da comunidade, não só no edifício.
Ramban entende que a Arca é o centro do Mishkan, pois nela estão as tábuas, a Torá, e sobre ela se manifesta a voz divina entre os querubins.
Mensagens para hoje
Serviço a Deus começa com o coração: doação não é apenas financeira, mas tempo, talento, atenção, tudo “cujo coração impulsionar”.
O “santuário” não é só o prédio da sinagoga; toda casa, toda comunidade pode se tornar um Mishkan, se organizada para permitir a presença de Deus “no meio deles”.
Exemplo pedagógico: numa comunidade pequena, cada pessoa que voluntariamente assume uma tarefa (ensinar, organizar, limpar, cuidar de alguém) está “trazendo sua Terumá” e construindo um espaço de santidade.
Aliá 2 – A Arca, a Kaporet e os Querubins (25:17–40)
Resumo
Descrição da tampa da Arca (Kaporet) de ouro puro, com dois querubins de ouro batido, um de frente ao outro, com asas estendidas.
Deus diz que falará com Moshe de cima da Kaporet, entre os querubins.
Em seguida, descrição da mesa (Shulchan) para os pães (Lechem haPanim) com seus utensílios.
Descrição da Menorá de ouro puro, com sete braços, cálices, botões e flores, toda de uma peça única.
Comentários de sábios
Sobre os querubins, Rashi e outros explicam que representam rostos infantis, simbolizando o amor entre Deus e Israel; quando o povo era fiel, diz o Midrash, seus rostos “se voltavam” um para o outro.
Sforno destaca que os querubins são o ponto de comunicação com Moshe – evidenciando que a profecia e a orientação divina são centrais no Mishkan.
A mesa com pão permanente simboliza sustento contínuo; o Ramban vê o Shulchan como instrumento pelo qual a bênção material flui para Israel (como se o pão físico fosse o “catalisador” da abundância).
A Menorá simboliza luz espiritual, sabedoria, Torá. O Talmud menciona que a luz da Menorá não é para “iluminar” Deus, mas um testemunho de Sua presença entre Israel.
Mensagens para hoje
A presença de Deus se manifesta no equilíbrio entre espiritual (Menorá) e material (Shulchan): estudar e orar, mas também trabalhar e cuidar de sustento com fé.
Os querubins sobre a Arca com a Torá no centro lembram que relacionamento com Deus passa por Sua Palavra; proximidade sem Torá vira sentimentalismo, Torá sem relação vira formalismo.
Aliá 3 – Cortinas internas do Mishkan (26:1–14)
Resumo
Descrição das cortinas interiores de linho, lã azul, púrpura e carmesim, com querubins artisticamente tecidos.
Número de cortinas, formas de uni-las com laçadas e colchetes de ouro.
Depois, cortinas de pelo de cabra, peles de carneiro tintas e possivelmente peles de “tachash” (animal discutido pelos comentaristas) como cobertura exterior.
Comentários de sábios
Muitos comentaristas notam o contraste: interior de grande beleza artística e exterior mais simples, até “rústico”.
Isso é associado à ideia de que a verdadeira beleza está dentro; por fora, o Mishkan podia parecer modesto, mas por dentro era riquíssimo.
Alguns Midrashim veem nos querubins das cortinas um lembrete constante da presença dos anjos e da santidade, cercando toda a estrutura.
Mensagens para hoje
Vida judaica autêntica valoriza o interior mais que o exterior: caráter, fé, integridade, mesmo que a aparência externa seja simples.
Em termos de comunidade, uma sinagoga modesta, porém viva espiritualmente, pode ser mais “Mishkan” do que um prédio luxuoso sem Torá e sem chessed.
Aliá 4 – Tábuas, trancas e estrutura (26:15–30)
Resumo
Deus detalha as tábuas de madeira de acácia que formam as paredes do Mishkan, com encaixes, bases de prata e travessões.
Descrição do comprimento das tábuas, disposição no sul, norte e oeste, e barras que atravessam para dar firmeza.
Comentários de sábios
A madeira de acácia (shitim) em tradição rabínica foi plantada já por Yaakov, prevendo que um dia os filhos precisariam dela; isso mostra visão de longo prazo espiritual.
Alguns midrashim ligam “shitim” à palavra “shtut” (loucura), dizendo que santidade é usar a “loucura” humana para o bem, canalizando energia e paixão para o serviço divino.
O detalhamento técnico mostra que a santidade exige estrutura, disciplina, não apenas entusiasmo espontâneo.
Mensagens para hoje
Planejamento a longo prazo em educação e espiritualidade: plantar hoje madeira que será usada por gerações futuras em suas “construções espirituais”.
Religiosidade precisa de “tábuas e trancas”: horários, compromissos, rotina de estudo e oração, sem os quais tudo “desmonta” facilmente.
Aliá 5 – Divisórias internas e posicionamento da Arca e da Mesa (26:31–37)
Resumo
Descrição do Parochet (cortina divisória) que separa o Kodesh (Lugar Santo) do Kodesh HaKodashim (Santo dos Santos).
A Arca é colocada atrás do Parochet, e a mesa e a Menorá no espaço do Kodesh.
Descrição da cortina da entrada do Mishkan, com colunas e bases.
Comentários de sábios
A divisão entre Kodesh e Kodesh HaKodashim representa graus de santidade; nem tudo é igual, há áreas e tempos mais sagrados que outros.
O fato de que só o Cohen Gadol entra no Santo dos Santos, e somente em Yom Kipur, reforça o senso de reverência e limites no encontro com o sagrado.
Comentadores modernos veem aqui também a ideia de que, embora Deus queira habitar “entre nós”, há um mistério divino que permanece velado, acima da nossa compreensão total.
Mensagens para hoje
Reconhecer esferas de maior santidade em nossa vida: Shabat versus dias de semana, tempos de tefilá, espaços de estudo.
Respeitar limites: nem tudo é acessível em qualquer momento e de qualquer maneira; o relacionamento com o divino exige humildade e preparação.
Aliá 6 – O altar de cobre (mizbeach ha’olah) (27:1–8)
Resumo
Detalhes do altar exterior, feito de madeira de acácia revestida de cobre, com chifres em cada canto.
O altar tem grelha, argolas, varas para transporte e é o local onde se oferecem os holocaustos.
Comentários de sábios
O altar exterior é onde o povo aparece “mais diretamente”: ali são trazidos os sacrifícios públicos e individuais.
Alguns comentaristas veem os “chifres” do altar como símbolo de força e exaltação; o perdão e a reconciliação com Deus dão nova força ao povo.
Rambam interpreta todo o sistema de sacrifícios como forma de canalizar práticas comuns no mundo antigo, redirecionando-as para o serviço do Deus único e afastando Israel da idolatria.
Mensagens para hoje
Mesmo sem sacrifícios hoje, o conceito de “altar” continua: o coração contrito, a tefilá, a tzedaká, são chamados de “sacrifícios espirituais”.
Lugar de correção: o altar lembra que sempre há caminho de retorno, teshuvá; não existe vida espiritual sem reconhecimento do erro e pedido de perdão.
Aliá 7 – O pátio do Mishkan (27:9–19)
Resumo
Descrição do átrio (chatzer) do Mishkan, com cortinas de linho, colunas, bases de cobre, ganchos de prata e portão de entrada.
Tudo é especificado: medidas, materiais e arranjo.
Comentários de sábios
O pátio é a área de acesso mais amplo; é o espaço onde o povo se aproxima, trazendo suas oferendas e participando do culto.
A combinação de materiais (prata, cobre, linho) reforça o tema geral: beleza, ordem e separação do profano, mesmo na área “externa”.
Alguns comentaristas veem o pátio como metáfora para o espaço comunitário: não tão íntimo quanto o Santo dos Santos, mas igualmente parte da avodá.
Mensagens para hoje
Há espaço para todos em níveis variados: alguns se dedicam mais ao estudo profundo (como entrar mais “para dentro”), outros atuam mais na área comunitária externa, mas todos fazem parte do Mishkan coletivo.
A entrada bem definida lembra que entrar em um espaço de santidade exige disposição e um mínimo de preparo; até o “portão” tem sua dignidade.

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