domingo, 15 de fevereiro de 2026

Parashá Terumá

 Parashá Terumá (Shemot/Êxodo 25:1–27:19) é o início da longa seção sobre o Mishkan,

o “Santuário portátil”, e fala de contribuição voluntária, da presença divina na história e de como transformar espaço físico em lugar de encontro com Deus. A seguir, organizo um shiur com as aliot, resumo do texto, alguns principais mefarshim (Rashi, Ramban, Sforno, etc.) e mensagens práticas para hoje.

Visão geral da Parashá

  • Localização: Shemot 25:1–27:19.

  • Tema central: ordem de construir o Mishkan (Tabernáculo), com detalhes minuciosos dos utensílios e da própria estrutura.

  • Estrutura básica:

    • Pedidos de doações (terumá).

    • Arca (Aron), Kaporet (tampa) e querubins.

    • Mesa dos pães (Shulchan) e Menorá.

    • Estrutura do Mishkan, cortinas, tábuas, etc.

    • Altar exterior (mizbeach ha’olah) e pátio.

Ramban vê o Mishkan como continuação da Revelação do Sinai: a Presença que se manifestou em Har Sinai agora “se concentra” de forma permanente no Mishkan, como se o Sinai fosse “transportado” para o acampamento. Rashi e Sforno relacionam o Mishkan também com a prevenção de desvio para formas de culto pagão, especialmente em relação ao bezerro de ouro.


Aliá 1 – Doações e propósito do Mishkan (25:1–16)

Resumo

  • Deus ordena a Moshe que peça doações voluntárias (terumá) de ouro, prata, cobre, tecidos, peles, madeira de acácia, óleo, especiarias e pedras preciosas.

  • Objetivo: “E farão para Mim um santuário, e habitarei no meio deles” – não apenas “no meio dele (do templo)”, mas “no meio deles (do povo)”.

  • Começa a descrição da Arca da Aliança, com dimensões e materiais (madeira revestida de ouro, argolas e varas de transporte).

Comentários de sábios

  • Rashi nota que as doações são “de todo homem cujo coração o impulsionar”, destacando a importância do coração na mitsvá: não é imposto à força, mas expressão de vontade interna.

  • A palavra Terumá é entendida como “elevação”: o doador eleva o objeto e, ao mesmo tempo, se eleva espiritualmente.

  • O versículo “E fareis para Mim um santuário, e Eu habitarei no meio deles” é interpretado por muitos (Midrash, Chassidut) como: o verdadeiro lugar da Shechiná é dentro de cada judeu, dentro da comunidade, não só no edifício.

  • Ramban entende que a Arca é o centro do Mishkan, pois nela estão as tábuas, a Torá, e sobre ela se manifesta a voz divina entre os querubins.

Mensagens para hoje

  • Serviço a Deus começa com o coração: doação não é apenas financeira, mas tempo, talento, atenção, tudo “cujo coração impulsionar”.

  • O “santuário” não é só o prédio da sinagoga; toda casa, toda comunidade pode se tornar um Mishkan, se organizada para permitir a presença de Deus “no meio deles”.

Exemplo pedagógico: numa comunidade pequena, cada pessoa que voluntariamente assume uma tarefa (ensinar, organizar, limpar, cuidar de alguém) está “trazendo sua Terumá” e construindo um espaço de santidade.


Aliá 2 – A Arca, a Kaporet e os Querubins (25:17–40)

Resumo

  • Descrição da tampa da Arca (Kaporet) de ouro puro, com dois querubins de ouro batido, um de frente ao outro, com asas estendidas.

  • Deus diz que falará com Moshe de cima da Kaporet, entre os querubins.

  • Em seguida, descrição da mesa (Shulchan) para os pães (Lechem haPanim) com seus utensílios.

  • Descrição da Menorá de ouro puro, com sete braços, cálices, botões e flores, toda de uma peça única.

Comentários de sábios

  • Sobre os querubins, Rashi e outros explicam que representam rostos infantis, simbolizando o amor entre Deus e Israel; quando o povo era fiel, diz o Midrash, seus rostos “se voltavam” um para o outro.

  • Sforno destaca que os querubins são o ponto de comunicação com Moshe – evidenciando que a profecia e a orientação divina são centrais no Mishkan.

  • A mesa com pão permanente simboliza sustento contínuo; o Ramban vê o Shulchan como instrumento pelo qual a bênção material flui para Israel (como se o pão físico fosse o “catalisador” da abundância).

  • A Menorá simboliza luz espiritual, sabedoria, Torá. O Talmud menciona que a luz da Menorá não é para “iluminar” Deus, mas um testemunho de Sua presença entre Israel.

Mensagens para hoje

  • A presença de Deus se manifesta no equilíbrio entre espiritual (Menorá) e material (Shulchan): estudar e orar, mas também trabalhar e cuidar de sustento com fé.

  • Os querubins sobre a Arca com a Torá no centro lembram que relacionamento com Deus passa por Sua Palavra; proximidade sem Torá vira sentimentalismo, Torá sem relação vira formalismo.


Aliá 3 – Cortinas internas do Mishkan (26:1–14)

Resumo

  • Descrição das cortinas interiores de linho, lã azul, púrpura e carmesim, com querubins artisticamente tecidos.

  • Número de cortinas, formas de uni-las com laçadas e colchetes de ouro.

  • Depois, cortinas de pelo de cabra, peles de carneiro tintas e possivelmente peles de “tachash” (animal discutido pelos comentaristas) como cobertura exterior.

Comentários de sábios

  • Muitos comentaristas notam o contraste: interior de grande beleza artística e exterior mais simples, até “rústico”.

  • Isso é associado à ideia de que a verdadeira beleza está dentro; por fora, o Mishkan podia parecer modesto, mas por dentro era riquíssimo.

  • Alguns Midrashim veem nos querubins das cortinas um lembrete constante da presença dos anjos e da santidade, cercando toda a estrutura.

Mensagens para hoje

  • Vida judaica autêntica valoriza o interior mais que o exterior: caráter, fé, integridade, mesmo que a aparência externa seja simples.

  • Em termos de comunidade, uma sinagoga modesta, porém viva espiritualmente, pode ser mais “Mishkan” do que um prédio luxuoso sem Torá e sem chessed.


Aliá 4 – Tábuas, trancas e estrutura (26:15–30)

Resumo

  • Deus detalha as tábuas de madeira de acácia que formam as paredes do Mishkan, com encaixes, bases de prata e travessões.

  • Descrição do comprimento das tábuas, disposição no sul, norte e oeste, e barras que atravessam para dar firmeza.

Comentários de sábios

  • A madeira de acácia (shitim) em tradição rabínica foi plantada já por Yaakov, prevendo que um dia os filhos precisariam dela; isso mostra visão de longo prazo espiritual.

  • Alguns midrashim ligam “shitim” à palavra “shtut” (loucura), dizendo que santidade é usar a “loucura” humana para o bem, canalizando energia e paixão para o serviço divino.

  • O detalhamento técnico mostra que a santidade exige estrutura, disciplina, não apenas entusiasmo espontâneo.

Mensagens para hoje

  • Planejamento a longo prazo em educação e espiritualidade: plantar hoje madeira que será usada por gerações futuras em suas “construções espirituais”.

  • Religiosidade precisa de “tábuas e trancas”: horários, compromissos, rotina de estudo e oração, sem os quais tudo “desmonta” facilmente.


Aliá 5 – Divisórias internas e posicionamento da Arca e da Mesa (26:31–37)

Resumo

  • Descrição do Parochet (cortina divisória) que separa o Kodesh (Lugar Santo) do Kodesh HaKodashim (Santo dos Santos).

  • A Arca é colocada atrás do Parochet, e a mesa e a Menorá no espaço do Kodesh.

  • Descrição da cortina da entrada do Mishkan, com colunas e bases.

Comentários de sábios

  • A divisão entre Kodesh e Kodesh HaKodashim representa graus de santidade; nem tudo é igual, há áreas e tempos mais sagrados que outros.

  • O fato de que só o Cohen Gadol entra no Santo dos Santos, e somente em Yom Kipur, reforça o senso de reverência e limites no encontro com o sagrado.

  • Comentadores modernos veem aqui também a ideia de que, embora Deus queira habitar “entre nós”, há um mistério divino que permanece velado, acima da nossa compreensão total.

Mensagens para hoje

  • Reconhecer esferas de maior santidade em nossa vida: Shabat versus dias de semana, tempos de tefilá, espaços de estudo.

  • Respeitar limites: nem tudo é acessível em qualquer momento e de qualquer maneira; o relacionamento com o divino exige humildade e preparação.


Aliá 6 – O altar de cobre (mizbeach ha’olah) (27:1–8)

Resumo

  • Detalhes do altar exterior, feito de madeira de acácia revestida de cobre, com chifres em cada canto.

  • O altar tem grelha, argolas, varas para transporte e é o local onde se oferecem os holocaustos.

Comentários de sábios

  • O altar exterior é onde o povo aparece “mais diretamente”: ali são trazidos os sacrifícios públicos e individuais.

  • Alguns comentaristas veem os “chifres” do altar como símbolo de força e exaltação; o perdão e a reconciliação com Deus dão nova força ao povo.

  • Rambam interpreta todo o sistema de sacrifícios como forma de canalizar práticas comuns no mundo antigo, redirecionando-as para o serviço do Deus único e afastando Israel da idolatria.

Mensagens para hoje

  • Mesmo sem sacrifícios hoje, o conceito de “altar” continua: o coração contrito, a tefilá, a tzedaká, são chamados de “sacrifícios espirituais”.

  • Lugar de correção: o altar lembra que sempre há caminho de retorno, teshuvá; não existe vida espiritual sem reconhecimento do erro e pedido de perdão.


Aliá 7 – O pátio do Mishkan (27:9–19)

Resumo

  • Descrição do átrio (chatzer) do Mishkan, com cortinas de linho, colunas, bases de cobre, ganchos de prata e portão de entrada.

  • Tudo é especificado: medidas, materiais e arranjo.

Comentários de sábios

  • O pátio é a área de acesso mais amplo; é o espaço onde o povo se aproxima, trazendo suas oferendas e participando do culto.

  • A combinação de materiais (prata, cobre, linho) reforça o tema geral: beleza, ordem e separação do profano, mesmo na área “externa”.

  • Alguns comentaristas veem o pátio como metáfora para o espaço comunitário: não tão íntimo quanto o Santo dos Santos, mas igualmente parte da avodá.

Mensagens para hoje

  • Há espaço para todos em níveis variados: alguns se dedicam mais ao estudo profundo (como entrar mais “para dentro”), outros atuam mais na área comunitária externa, mas todos fazem parte do Mishkan coletivo.

  • A entrada bem definida lembra que entrar em um espaço de santidade exige disposição e um mínimo de preparo; até o “portão” tem sua dignidade.

por: Familia Bnei Avraham

Parashá Terumá

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